(Artigo de Angela Dutra de Menezes)
Uma ou duas palavras sobre o meu mais recente coleguinha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, novo colunista para assuntos internacionais de um dos mais famosos jornais do mundo: o New York Times.
Claro que, como a maior parte das ôtoridades ocupadíssimas, ele terá um ghost-writter. Isso, em absoluto, não o desabona. A imensa maioria de presidentes e ex-presidentes, de todos os países que conheço, recorre a um redator de confiança. Não poderia ser de outra maneira. Ninguém imagina a mão de obra que é escrever duas linhas com alguma lógica. Apenas ser alfabetizado não resolve o problema. Para a produção de um bom texto há que se ter um pouco de talento, que, reconheço, os políticos não são obrigados a ter. Então, até aqui, nada me surpreende na nova atividade laboral de Mr. Lula.
Meu espanto começou com a reação dos petistas à novidade. Petistas são seres quase alienígenas, não se cansam de me surpreender. Pois não é que, em vez de se congratularem com o novo escriba internacional, eles logo saíram correndo para implicar com o FHC? Cansei de ler, nas redes sociais, cutucados no doutor Cardoso. Doutor mesmo, por mérito próprio. Recebeu uns títulos Honoris Causa, que, claro, são importantes, mas não chegam a pesar em seu currículo de professor da Sorbonne. Fernando Henrique deve ter achado graça – até eu achei – nessa nova manifestação de inveja mal disfarçada. Vivendo e aprendendo: inclusive para a manifestação de sentimentos menos nobres, digamos assim, é necessário um pouco de inteligência. Numa boa, o que tem o FHC a ver com a coluna internacional do Lula? Gente mal resolvida, meu Deus. Uma boa análise resolveria essa dor de cotovelo. Afinal, o que importa se um ex-presidente é PhD em Sociologia e o outro, semi-analfabeto? Ambos são inteligentes, ambos foram eleitos pelo povo. Qual é o problema?
Palavras são perigosas, costumam trair os vaidosos. Basta ver a nossa presidente falando de improviso. Apesar dos indigitados esforços, Dilma não junta Lé com Cré, chega a dar pena. No improviso, Lula também nos ofereceu momentos memoráveis. Para quem duvida, está no YouTube a sua hilária explicação sobre o aquecimento global “(..) se a Terra fosse plana, o sol bateria em todos os lugares, mas ela é redonda (…)”. Droga de Terra, não bastasse estar poluída, ainda inventou de ser redonda. Coisa chata, sério. Além de atrapalhar o discurso do cumpanhero, ela ainda atazana a cabeça de um monte de cientistas. Então, a Terra não poderia ser retangular, como queria Lula? Tudo ficaria tão mais fácil…
Mas o new-foca solfejou outras pérolas. Por exemplo, a citação a Napoleão, que ao invadir a China, teria declarado “este gigante adormecido, um dia despertará”. Ou, ainda, na visita à Namíbia, expressando, espantado, seu assombro com a cidade “tão limpinha, nem parece que estou na África”. Guardo uma lista imensa de bobagens alardeadas pelo recém-contratado do New York Times. Uma de minhas distrações é reuni-las numa pasta, aberta exclusivamente para este fim. Acho que, um dia, irei publicá-las…
Com um profissional deste quilate, tão criativo, o jornalão norte-americano, sem dúvida, já acionou as suas defesas. Além do ghost writer, do tradutor do ghost writer, do revisor do ghost writer e de um coringa selecionado semanalmente – cada semana, um diferente – para não escapar nenhuma barbárie, as mães de todos os envolvidos nessa aventura lítero-sindical serão mantidas em cárcere privado. Se escapar alguma batata, a Livia Marini será acionada para matar a senhora genitora do responsável, com uma injeção de veneno na jugular. Mas será veneno brando, calminho, para a morte ser lenta. Vê lá se os irmãos do Norte perdoam inguinorâncias? Graças a Deus, dona Lindu – que, coitada, nasceu analfabeta, uma raridade genética nunca antes acontecida na História do Universo – já está no céu. Ou seria ela a primeira a quem a vilã de Salve Jorge treinaria a sua mira de atirador de elite.
Enfim, é isso. Desejo a dom Lula todo o sucesso do mundo na nova carreira. Acho que ele descobrirá as maravilhas de ser jornalista. A emoção de lidar com a notícia, a realização inexplicável de ver o próprio texto – bem, neste caso, em termos – publicado, lido, comentado.
Assim, quem sabe, o PT descartará a idéia fixa de regular a Imprensa? Afinal, nos Estados Unidos da América, país de opiniões 100% livres, pegará mal para o New York Times a presença de um colunista obcecado em amordaçar os coleguinhas ao sul do Equador…
Angela Dutra de Menezes é escritora e jornalista.
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(Article by Angela Dutra de Menezes, writer and journalist)
Angela’s excellent article deals with the unbelievable: Lula becoming a columnist for the New York Times — and more than that, the fact his friends at the Workers Party have not been able, so far, to celebrate that accomplishment properly. They prefer to attack (for the umpteenth time) his main political adversary, former president Fernando Henrique Cardoso – a genuine scholar, university professor, statesman. Angela tries to diffuse the bomb by asking “what does it matter if one president is a Sociology PhD and the other can barely read and write? Both are intelligent and both were elected by the people. What’s the problem?” Angela also reminds us that words are dangerous and brings up some of Lula’s celebrated faux pas. She assumes that an important newspaper like the New York Times has already set up a protective system to be able to defend itself from the absolute creativity of such a professional. Besides the ghost writer, the ghost writer’s translator, the ghost writer’s reviewer and a “wild card contributor” chosen weekly, all the mothers of those involved shall be maintained in confinement to avoid some sort of tragedy. Finally, Angela asks… “Who knows if (with Lula working for the New York Times) the Workers Party will cease and desist of its obsession with regulating the media? After all, in the United States of America, where opinion is 100% free, it will not look good for the New York Times to maintain a columnist obsessed with gagging his fellow journalists South of the Equator…